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sexta-feira, 17 de janeiro de 2025

O CATADOR DE ENCANTOS


Quero o olhar desvanecido da mulher apaixonada

E a vista das serras majestosas e cascatas.

Quero os cachorros brincando, felizes, nos quintais

E a canção mais linda a vir no vento qual carícia.

Quero a paz dos recantos maviosos, temperados

E a magia das emoções e alumbramentos,

Como vivera o alvorecer eternamente,

Como ficasse a catar encantos sem cessar.


2024

PARTE...!


Parte e suaviza a casa em tons de paz

Da tua ausência tão somente.

Parte ainda madrugada

E deixa a manhã chegar perplexa

Da leveza do sossego simplesmente.


Minha poesia irá encontrar o dia ainda preguiçoso

E os passarinhos cantando vivamente,

Como se festejassem também tua partida.

E eu contemplarei o dia alegremente,

E me darei a versejar doçuras,

Como tocasse, embevecido, um violão

E flutuasse e viajasse nos acordes mais bonitos.


2024

QUADRO SEM COR


 Hoje nem cantei de manhã,

Hoje nem vi o sol raiar.

Acho que nem houve manhã

Depois que você me deixou.


Hoje nem falei de esperança,

Hoje nem ouvi melodias

Nem sequer vi rumo a seguir:

Sem você, meu norte perdi.


O dia é estático, imóvel,

É bem como um quadro sem cor,

Sem tom, sem figura ou paisagem:

Meu mundo calou-se e parou.


2024

FECHA AS PORTAS D'ALMA

 

 Sai às ruas, abre os braços,

Busca a orquestra, a claridade,

Busca o sol que há nas pessoas,

Busca o dia mais bonito

E a vontade de cantar.


Mas me dizes que lá fora

Não tem rua ou claridade,

Se há orquestra, nunca ouviste,

E as pessoas não têm sol.


Então, fica em tua casa,

Te enclausura no teu mundo,

Tranca as portas do teu mundo,

Submerge todo em ti.


2024

ALÉM DA FIDELIDADE

 

 Sei que o amas e admiras,

Mas te peço: dá-te a mim

Como nada mais houvesse,

Como musa apaixonada

Num furor angelical.


Tenho aquela que me encanta,

Mas te quero num afã

De um amante romanesco:

No teu beijo, no teu corpo,

Quero entrar no paraíso.


Vem criar comigo um mundo

Pelo amor todo estrelado.

Vem fazer deste momento

A mais plena eternidade

E um luar só de nós dois.


2024

O AMAR DEMAIS


 O amor grande demais explode o peito

Ou o faz desabrochar em pétalas profusas

E emanar perfume e acordes pelo ar?


O amor demais faz adoecer

Ou robustece a vida a palpitar

No coração tão prenhe de emoções?


O amor demais traz agonia

Por não haver palavras pra expressar

Ou nos faz tão belos assim como o luar?


O amor demais nos faz chorar

Ou de tanto sentimento embevecer

Como os cães em seu afeto sem igual?


2024


POEMA DA MANHÃ

 

 Vem, mulher dos olhos mansos,

Acender minha manhã;

Vem, alegra minha casa

E fogueia o corpo meu.


Passarinho matutino, 

Vem pousar nessa varanda,

Salpicar tua alegria,

Vem cantar no peito meu 


Sol ameno, adentra o quarto,

Enche a casa com teus raios;

Vem ornar essas paredes,

Vem mostrar que há vida em mim.


2024

NÁUFRAGO

 

 Ai, viajante

A percorrer

Caminhos turvos,

Negras ondas,

Bravos mares:

Marinheiro

Dos naufrágios,

Sem resgate,

Terra à vista

Ou uma ilhota.


Ai, o temor,

Temor dos ventos,

Das calmarias,

Do breu da noite,

Do sol brilhante...

Do céu que encosta

Nas águas verdes

Temor profundo

Da morte e vida.


Temer, chorar...

Ai, olhos baços

Que nada avistam,

Que nada esperam

Nem mais se iludem:

Serenos, miram

A triste morte:

Ai, viajante 

A dar-se à morte.


2024

A SAUDADE

 

 A saudade dói qual querer voltar

Sem achar jamais o caminho,

Rói como o afã de retorno

À terra que não há mais,

Precisar se aquecer do frio

Ao sol que morreu, se apagou.

Ansiar pela voz sublime

De alguém que já emudeceu.

É assim como sede intensa

De beber na fonte já seca.

A saudade é um séquio de estar

Na mata que agora é cinza

E traz um desejo insano

De prantear sem cessar.


2024

ELA

 

 Aninhou-se em meu peito como eu fosse abrigo

Dos maremotos e furiosos vendavais;

Como se a protegesse do tempo e da tristeza,

Da infâmia, da morte, da dor e todo mal.


Aconchegada, era como uma menina,

Mas se deu na incandescência de mulher.

Disse coisas de fazer devanear.

Sua voz enchia o ar de poesia.


Ao sair, estava ainda mais bonita,

Um poema ambulante pelas ruas.

Plantou vida, alegria em minha casa,

Do meu peito fez morada da esperança 


2024

O PORÃO

 

 Na manhã fria, o sol clareou e aqueceu as ruas, a casa e o meu corpo, mas não minha alma  fatigada e estendida num porão úmido, escuro e lúgubre.


2024

PARTE!

 

 Nunca vi falar de amor teus olhos.

Não digas, não, ternuras que não venham do fundo do teu peito.

Não olhes, não, pela janela,

Se a vida, sambando pelas ruas,

Não te venha de algum modo  arrebatar.


Não chores, não, por favor, se não for por sentimento.

Não fiques, não: parte, vai embora pra bem longe,

Bem distante dos meus olhos, mais ainda do meu peito,

Como se jamais nascera ou jamais eu te avistara.

Parte tão somente , e minh'alma n'algum ponto

Dessa estrada dos meus dias

Irá, tenho certeza, se acender mais uma vez.


2024

É NOITE


É noite... é noite... É noite, é profunda madrugada.

É noite...

O violeiro que  tocava arredou-se pra bem longe,

A mulher bonita retirou-se da janela,

O sol dourado escondeu-se no infinito,

As ruas todas se fizeram cemitérios

E a cidade emudeceu como uma estátua,

E o mundo inteiro se fez silente e escuro.

È noite... é noite...

È noite sem faróis, luar , estrelas,

Imersa em seu inverno e no seu breu.


2024

A MULHER DE PÉTALAS

 

Ah, que essa mulher que me toca (!)

É como cheirasse a jasmim,

Tivesse um nome de flor,

Tem olhos serenos de céu.


É qual fora uma bailarina,

Tivesse a leveza de pluma

E qual levitasse ao bailar;

Tivesse um semblante de fada,

De uma heroína dos contos

Mais cheios de amor e emoções;

Tivesse alma doce e macia

E fosse frágil qual pétala,

E suplicante ao se dar.


Imensa ternura me invade,

Pois ela é ameno poema,

É como manhã clara e calma

E cantasse cantigas de seda,

De amar, aquecer e afagar.


2024

A MANHÃ E AS CADELAS


Desperto com dois anjos em minha cama:

Mel e Raposa fugindo ao frio, 

Agasalhadas de moleton.

fico bonito como ninguém 

Porque me encanto co'essas cadelas,

Co'as borboletas e os passarinhos

E, assim, eu, Natureza e os animais

Ficamos unos, um ente só.


2024

CHAMAMENTO PARA O AMOR

 

 Venha amar assim como se fôssemos seguir

Uma estrada escura e luminosa de delírios

Em que os gostos e os odores da lascívia

Nos viessem plenamente embriagar,

E essa estrada não findasse, não, jamais.



Arquejar e suspirar, gemer e sussurrar

As coisas mais reais e mais insanas da volúpia

Que somente o corpo em seus poemas tão ardentes

É que sabe propriamente proferir.



Ah, nós nos banharmos em riachos e cascatas

De um lugar todo erigido em devaneios!

Ah, ouvirmos cantar os deuses da luxúria

Num momento que não possa, não, findar jamais.


2024

PARTIDA

 

 Posso, sim, partir agora mesmo,

Mas e se a noite escurecer demais?

Mas e se a rua entristecer e se calar

Num silêncio torturante e sepulcral?


Posso, sim, partir qual combinamos,

Mas e se toda madrugada for insone,

Se me ficar cravado teu rosto na memória,

E a agonia me fizer querer morrer?


Posso, sim, partir pra todo o sempre,

Mas se eu quiser me enganar o tempo inteiro:

Secar os bares tentando crer que é por prazer,

Chorar tentando achar que é pelas dores deste mundo?


Estou partindo e, asseguro, não tem volta,

Mas se depois buscar alguém com os seus olhos,

Seu sorriso, com seu jeito ou modo de se dar?

Vou partindo, sim, e vou altivo,

Mas, se em meu peito se abrir uma ferida

De levar a vida inteira pra cicatrizar?


2024

VERSOS DE PORCELANA Nº 3

 

 Vem aqui, amor, acorda,

Vem sonhar desta varanda,

Vem sentir que a noite é doce,

Vem achar que a vida é bela.



Vê que a noite é tão deserta,

Mas não tem tristeza alguma.

Sente vir na brisa fresca

A mais leve poesia.



Vem, se achega e aqui me abraça,

Que eu me dou  num madrigal.

Vem voar deste planeta,

Numa nave de emoções.


2024

QUEM TE OUVIU CANTAR

 

 Quem te ouviu cantar se fascinou

E se fez alma, se fez éter, comoção

E mergulhou, então, profundamente

Na quintessência angelical da tua voz.



Quem te ouviu cantar sei que voou

Andou nos céus, nos astros, sóis, cometas,

N'Estrela D'Alva, embevecido, recostou-se,

Extasiado de poder te ouvir cantar.


2024

BONITA

 

 Venha logo, abra a janela:

Veja a noite como é bela, 

Que a alegria é tão vibrante

Como fosse um turbilhão.


Seu vestido pequenino

Vista e saia passeando

Sob os olhos cobiçosos

Dos ateus e dos cristãos.


Saia assim como se o dia

Fosse feito de festejos

E você rodopiasse

Numa dança angelical.


Solte ao vento os seus cabelos,

Deixe a luz sobre o decote,

Deixe entrar a poesia

E palpitar os corações.


2024

POETICAMENTE

 

 Hoje acordei pra poetar:

Pintei de branco o mundo, as ruas 

Pus a tocar canções suaves,

 Me acomodei na minha paz.


Vou ver voar o bem-te-vi,

Ouvir cantar o sabiá,

Varrer pra longe os dissabores,

Da brisa fresca me regalar.


Irei falar de amor e dança,

De rio e sol, de relva e mar;

Vou-me lotar de arroubo, afãs 

Soltar o verbo co'as emoções.


2024

SE VOCÊ VIER PRA MIM


 Se você vier pra mim,

Eu prometo de pés juntos que alvoreço

E que vejo florir a poesia

Em cada trecho dos meus passos pela vida.


Minha alma se encherá de cores vivas,

Se fará completamente ensolarada.

Nutrirei as quimeras mais bonitas

Dos poetas descabidos, imaturos.


E direi tanto verso emocionado

Do meu peito latejante de paixão.

Ornarei de brandura e dos afetos

Um mundo todo de doçuras de nós dois.

PRESENTES

 

 Vem, mulher, me traze vida e festa,

Traze luzes, canto, mel aos dias

E às minhas noites, mulher, traze teu céu.


Abre o corpo, abre os braços, dá-me os lábios.

Vem, me enlaça em teu delírio e teus ardores,

Sê meu norte, meu abrigo e meu festim.


Vem me ser anis, ser minha fruta,

A delícia de eu seguir a minha  estrada,

Poesia a fervilhar dentro de mim.


2024

PURO AMOR

 

 Não fazer ode aos senhores poderosos,

Mas contemplar o passarinho se aninhando

E me enlevar do alto esplendor desse momento.


Não me encantar dos edifícios suntuosos

E ajoelhar-me ante a jaqueira majestosa,

Em plena prece de somente dar amor.


Louvar-amar a Natureza, mãe de todos

E abrir o peito palpitante da emoção 

De vê-la em festa, em sua exuberância divinal.


2024

NOITE SILENTE

 

 Não existe orquestra ou tamborins enchendo tarde clara

Nem canto de amor pulsante ornado das estrelas,

Ou ainda acordes de violão sob o luar.

Não há mais que a noite, a escuridão, silêncio fundo,

E tudo é mudo, tão distante e derradeiro.

Calado, o peito dorme, quieto, quase inerte;

O mundo é escuro, imóvel, num torpor interminável,

Pois tudo é mudo, tão distante e derradeiro.


2024


NÃO POSSO MAIS FICAR

 

 Não, não posso mais ficar:

São silentes os teus olhos,

Sem um brilho que traduza

A cantiga que há nos peitos

Que se emprenham de emoções.


Não, não posso mais ficar,

Se são frios os teus lábios,

São de mármore os teus lábios

E é incolor a tua fala

Tão despida de paixão.


Tuas mãos não têm calor,

São sem vida as tuas mãos.

Quem te fez assim de pedra?

Quem te fez de barro e argila?

Quem te fez de chumbo e ferro?


Quando entrei nesse teu mundo,

A buscar lirismo e festa, 

Descobri que és campo seco,

Deparei co'a solidão. 

Não, não posso mais ficar.


2024

POESIA ARTIFICIAL


 Imagine a inteligência artificial

Produzindo poesia eletrônica,

"Genuína" tal como o afeto

Da mulher que mente, que engana.


Pense os poemas robóticos

E os corações de titânio

Pulsando qual vibradores

E o pranto de silicone.


Você acha que os versos da máquina

Seriam parnasianos,

Com métrica e rimas perfeitas,

Leitores todos de lata?


Será que os poetas robôs,

De emoções totalmente desnudos,

Seriam como luvas perfeitas

Pros não-sentimentos dos homens?


2024

AUTÔMATO VIL

 

 As ruas, a poeira e um calor dos infernos.

Tudo é cinzento, incolor ao redor.

Nenhuma moça com um buquê de flores no colo

Nem enxugando, furtiva, lágrimas de perda do amor.

Nenhuma tristeza no meu poema de pedra:

Deus, que foi feito da tristeza dos meus versos?

Quem roubou a verde poesia dos campos?

Os grileiros, incendiários de matas ou os exploradores de gente?

Oi ainda a infalível morte brutal das criações?

O sol ferve todos os chãos, superfícies,

E a compaixão doída aos cachorros das ruas

Parece o único sentimento que tenho no peito.

Os rostos humanos não têm expressão senão arrogância:

Há muito me cansei das pessoas, prenhe de indignação e fastio.

Poderia quem sabe cantar os bares,

Porém minha poesia saiu do bar,

Que não é mais a síntese das coisas do mundo

E carece do encéfalo e do encanto de outrora.

Nada é música, mas sons de ferro batendo,

O tédio inefável alonga as distância que percorro

E transforma os minutos em horas infindas.

Vivo num mundo cinzento, onde nada é alegre nem triste,

E me vejo também feito de pedra e cimento,

E sigo, autômato vil, pelas ruas da vida.


2024

O BOB NO COLO


O Bob deita no colo de afeto da tutora

E adormece como bebê nos braços da mãe:

Criança em momento de santa ternura,

Anjo repousando no paraíso,

Na simbiose mais bela de amor.


2024

BARÃO DA MATA


"Barão da Mata" não é meu sobrenome.  Foi um codinome que criei para assinar meus trabalhos (antes não usava meu nome: Demóstenes), composto pelo nome de um cachorro que muito amei (Barão) e pela alusão às matas (da Mata).   Em outras palavras, "Barão da Mata" é uma declaração de amor aos animais e à natureza.


2024

ANA CELINA

 

 Por que bebe Ana Celina,

Solitária em sua sala,

Tão tristonha, na penumbra,

Pranteando ao fim da tarde

Iluminada de verão?


Lembrará momentos plenos

Soterrados no passado,

Numa dor de quase luto,

Corroída de saudades,

Sem podê-los retomar?


Sofrerá por ter perdido

Um amor que nunca esqueça

Ou então porque este mundo

De tão rude, a tenha feito

Se sentir medrosa e só?


Que pretende Ana Celina,

Mergulhada no seu gim,

Num silêncio de deserto,

Num olhar vago e distante

A fitar somente o nada?


O que dói n'Ana Celina

Que se estampa no semblante

Do seu rosto delicado,

Tão suave, apessegado,

Tão bonito de mulher?


O que chora Ana Celina

Na clausura dessa dor

A torná-la  débil, tênue,

Indefesa e pequenina,

Porcelana a se quebrar?


Proteger Ana Celina

Eu queria sem demora,

Se seus olhos permitissem,

Suas mãos se me estendessem

No abandono à solidão.


Quero ver Ana Celina

Deslizando pelos dias

Como fosse uma menina

Num sorriso luminoso,

A correr sobre patins.


2024

HOMEM DE FERRO E CIMENTO

 

 Quem não se encanta com sons de uma canção

Nem se rende a um olhar angelical de um animal...

Quem não se enleva em contemplar as verdes matas

Ou ver o mar a tocar o céu bem no horizonte...

Quem não delira nas paixões mais extremosas

Nem ama ser algum neste planeta...

Quem não se deixa bulir por arte alguma 

Anda e vegeta, sem viver jamais.

Não mais do que um robô de carne e osso,

Não tem alma nem carrega sentimentos,

É rude e insípido qual pó de asfalto

A voar pelas pistas sem poema e sem canção.


2023

A AMANTE

 

 Por que eu não iria embora,

Se cá nós trocamos injúrias,

Com ela é a mais pura luxúria,

E aqui nosso tédio é demais?


Não peça a mim que não vá,

Se a moça se encanta co'a Lua

E quer se banhar das estrelas

E, cálida, vem me beijar.


Por que eu ficaria sem ela,

Que aperta as mãos minhas nas suas,

Cantando uma linda cantiga,

E pisa nas águas do mar?


Tem tanta esperança nos olhos,

No rosto, um sorriso que é luz,

Na cama, delírios frenéticos,

No sono, uma paz sem igual.


Por que deixaria essa moça,

Se volto aos dezoito de idade,

Se sonho qual fosse um menino,

Se agora só entendo de amar?


2023

NOSTALGIA III


 A juventude acesa, as mil emoções, mil anseios,

Os dias luminosos, o rock e os amores efêmeros 

A funda tristeza dos amores perdidos

E a mais indescritível alegria de viver.


Não tenho jamais a insana, descabida quimera

De desejar minha volta aos vinte de idade,

Mas quero a alacridade das cheias manhãs

E das tardes se abrindo na festa da vida,

Assim como flor desabrochada ao sol claro.

Não quero, não, as assombrações de minh'alma

Em seus gemidos apavorantes, agoureiros e tétricos.

Só busco fazer que a folia dos dias

Adentre inteirinho meu coração desbotado.


2023

A ARTE

 

 A Arte é linda como um campo a se adornar de flores várias.

A arte é linda como nudez e como amar em delírio inominável.

A Arte é comovente assim como paixão que traz luz e canto à alma

Ou como simples beijo enternecido de mãe no seu do bebê.



A Arte é santa e doce como cães pueris a nos pedir afagos.

A Arte é elevada e grandiosa como os gestos mais prosaicos,

Quando as almas se purificam e se emprenham de pleno amor.



A Arte é linda como cascatas, como florestas, qual aves muitas em revoadas.

A Arte é sagrada quase qual mares, luares, serras, cerrados, onças, jacus, bujios, antas,  [harpias, os animais.

É majestosa, miraculosa, encantadora e até parece a própria inefável Mãe-Natureza.



O ponto comum e de encontro entre a Arte, o Amor e a Natureza é o Magnífico.


2023

DORMIR


 Já notei seus olhos brandos,

Suplicantes, me chamando:

Vou deitar em nossa cama,

Vou dormir em sua paz.

A MULHER DESNUDA

 

 A nudez da mulher é tão linda!

Relevos sublimes ante olhos sedentos,

Rosa se abrindo em pétalas róseas,

Em pétalas rubras ou pétalas púrpuras.

As grotas tão mornas de pura magia,

Caminhos ardentes ao Sétimo Céu.


A mulher desnuda, poesia divina,

Estendida no leito, é linda qual rio

Em campos celestes ornados de cores

Ao canto sublime das vozes de arcanjos.


A mulher despida, cantiga lasciva

Tão cheia de vida, de luz e pulsar.

A mulher que se despe é uma diva que pousa

Na cama suave e a converte num céu.


2023


MELANCOLIA III


 Se a tristeza me tocou, tão inclemente,

Como dedasse uma ferida viva em sangue

Bem no meio do mais fundo do meu coração...

Se mergulhei no passado mais distante

E lamentei o que foi e aconteceu

Além de tudo o que não houve ou ocorreu...

Se tanto andei dentro de casa como autômato

E me sentei, deitei, silente como um quadro estático

E tão parado como olhar que fita o longe tão somente...

Se me fiz mudo, quedo, quedo com estátua

Em beco escuro, deserto e enegrecido pelo tempo

E não quis sair pelas tão tristes ruas da cidade...

É que nada, nada pode ter razão alguma,

É que a alma em mim se encheu de sombras

E de um canto triste, melancólico, inaudível, 

E pisei no nada, e adentrei o nada, e o nada é dentro deste apartamento

Que dá vista a tudo o que não há, não é, que não existe,

Não se vê, não se encontra nem vislumbra, não se encontra simplesmente.


2023

INSPIRAÇÃO

 

 Hoje acordei com a alma à flor da pele:

Quero sair versejando pelas ruas,

Cantarolando mil  poemas delicados

Qual porcelana,  como pétalas e pássaros

Ou como olhar enamorado de mulher.


Vou contemplar embevecido pelas ruas

Cada cachorro extasiado em pulos vários

E cada gato em seus gestos graciosos.

Irei mirar com olhos comovidos de poeta 

Cada casa singela e seu jardim.


Vou dar-me a ouvir sons de viola e de piano,

Dizer os versos mais bonitos que conheço,

Como se orasse numa fé religiosa,

E me abraçar tão docemente à minha paz.


2023




AS RUAS DA POESIA


 Eu preciso, sim, que os [seresteiros se revezem

Em suas cantigas lamentosas, [doces, cheias de passado,

De saudade, nostalgia, de paixão [e solidão.


Eu preciso sair atrás dos violeiros

Que espalham poesia pelas ruas,

Pelos bares, becos, por jardins e [por pracinhas,

Arrebanhando em seu caminho a [multidão.


 Quero seguir a turba nessa [marcha maviosa

E sair murmurando cantos lindos

Como quem acompanha, [devotado, a procissão.


Quero fios de lágrimas nos olhos [das mulheres;

Quero os homens cheios de ilusões da [adolescência,

A alegria e a tristeza se abraçando

Num sentimental e elevada [comunhão.


Quero ver em cada ser humano [um poeta,

Em cada olhar, uma uma paixão, [pureza romanesca,

Em cada casal, uma entrega [simplesmente transcendente

E a poesia irmanando toda a [gente emocionada,

Em sentimentos tão sublimes e [repletos da mais plena [enlevação.


2023

ENCANTAMENTO


  Deita, linda, e abre o corpo

Ao meu corpo como fora

Rosa a abrir-se à estação

Que é das flores e do sol.


Dança, linda, ante meus olhos,

E eu te vejo aos sons de flauta,

Violino e de piano,

De uma harpa angelical.


Vem cantar uma canção

Da lindeza das estrelas,

Dessa lua que te veste

Com seus raios cor de prata.


Vem beijar, que a nossa cama

É um poema doce e leve

Como seda, e é um mundo

Estrelado de nós dois.


Vem falar da poesia

Encantando nossos dias,

Do deleite sem tamanho

Que é vivermos nosso amor.


2022

VEM, PAIXÃO!

 

 Vem, paixão, que és pulso, arroubo,

Que és fogacho e ventania,

Vem, paixão, e me arrebata,

Pois bem sei dos céus, infernos

Que contigo irás trazer!


Conquistar Taís no outono

E perdê-la em pleno inverno;

Refazer-me e dar-me a Vera,

Mas partir na primavera;

No verão ter Mara e Sandra,

Que amarei ao mesmo tempo,

Que amarei no mesmo afã.


Vem, paixão, e me arrebata,

Torna a mim alguém sem siso,

E eu viajo em tuas ondas

E me torno um turbilhão.

SE O AMOR ME TOCAR


 Se o amor me tocar como um feitiço,

Abrirei minhas narinas a inspirar os seus aromas

De afeição, de enlevo, de apego e sedução.

Amarei como se fora um trovador,

Flutuarei no Éden, sobre as águas, flores e jardins 


Irei querer promessas de um sentir que nunca finde,

Olhar estrelas e me encher de um verbo delicado

E ouvir da amada coisas ternas e repletas de doçura.

Seremos leves, fogueados, puros como pássaros,

Pois envoltos n'aura linda do mais alto e pleno amor.

NÃO ME DEIXE

 

 Não me deixe, não, na praça lotada;

Não me deixe, não, a praça deserta;

Não me deixe, não, aqui tão sozinho,

No beco sombrio da minha tristeza.


Não me deixe aqui, tão lasso, sem norte,

Perdido no mundo, vagando pro nada.

Não faça meu mundo silente e noturno,

Cortado de um frio a me arrepiar.

Não deixe que eu fique no inverno soturno:

Você é melodia, alegria e calor.


2022

ACENDER O DIA


 Não, não tenho a noite inteira,

Não, não tenho o tempo todo:

Vou fazer que nasça o dia. 

Vou correr atrás do sol,

Vou dançar à beira-mar.


Vou deixar que o peito grite

Toda a gana de viver.

Vou cantar um samba alegre,

Vou entrar no bar lotado,

Vou trazer o Carnaval.


Demolir as agonias,

Trucidar qualquer tristeza,

Suprimir a solidão. 

Entregar-me a um sentimento,

Mergulhar na multidão.


Ouvir surdo, ouvir pandeiros,

Na alegria mais vibrante.

Não, não tenho a noite toda,

Não, não tenho a vida inteira:

Vou querer viver e amar.


2022

AMOR


Vou zelar pela manhã

Que há na vida do teu riso,

Nos teus olhos cintilantes.


Salpicar por toda a casa

O perfume do suave

Das palavras de doçura.


Semear em nossos peitos

Um desejo desatado

De cantar por toda a vida.


Construir o nosso mundo

Dos afetos mais sublimes,

Nos nutrindo deste amor.


2022

DUETO DA DESPEDIDA


ELA:

Amor, eu bem sei que não volta,

E a tristeza me sai pelo poros

Como sangue que aflora na pele

Da ferida do meu coração.



ELE:

Amor, sei, nos fundimos num só,

Mas ficou tudo à volta sombrio

E com tantas tempestades e espinhos...

voltarei ao florir do verão.



ELA:

A partida me faz desolada,

Tão sem norte, sem vida e sem chão.

Meu amor, nunca mais você volta,

Fez-me escrava da mortal solidão.



ELE:

Em meu corpo levo o gosto do seu,

As lembranças se ataram a mim

Qual meus pelos, as unhas, as mãos:

Volto quando a primavera chegar.



ELA:

Eu mal sei se haverá primavera,

Se o verão nos virá iluminar.

Sei apenas que a vida é tão breve:

Você nunca, amor, vai voltar.


2022

A CANTORA


A cantora

Cantava como se fosse um arcanjo,

E a sua voz de seda  revolvia os meus sentimentos mais fundos,

E fazia deslizar no meu rosto um fio de lágrima.

Vinham-me à flor da pele as emoções mais doces,

E eu me vi, de súbito, num transe sublime,

Adentrando um céu sereno e suave, levitando entre as  nuvens alvas da paz.


2022

quarta-feira, 15 de janeiro de 2025

MEU LITORAL


 Tinha o lago, o quiosque e o bom vento,

As luzes da cidade nas águas,

Em multicores tão belas!


Tinha vários passantes, casais,

Um pulsar de viveza tão pleno,

Que a mim simplesmente enlevava.


A vida era alegre qual festa

E retumbava em minh'alma

Tal qual tamborins e atabaques.


Não quero mais noites tristes

Nem mais a cidade deserta

Bem qual cemitério gigante.


Não quero não mais ir à roça,

Quero pisar as areias 

E abrir os braços pro mar;


Mirar o azul furioso

Em sua dança fremente

E o lindo dos meus  litorais.


2022

VIDA, SONHO E BUSCA


 Sonhei quando a noite era infinda

E o sol vislumbrei no horizonte.

Chorei quando a sede era muita

E os dias jamais floresciam.

Tremi quando vi que o tempo

Passou como fora um cometa,

Deixando-me a estrada tão curta.

Corri quando veio o enfado,

Saindo em busca de vida. 

Caminho por dias tímidos,

Buscando por sóis e por luzes,

Por cores, enlevo e canções.


2022

VIVENTE MORTO


O bar, a música, pessoas, gargalhadas.
Passa o homem tristonho, macambúzio,
Qual robô, por entre as mesas álacres.
Lassidão, a dor, fio de lágrima,
O vazio torturante do abandono
E a dor tão perfurante da traição.


Cambaleia o infeliz, embriagado,
Quer sentar como um mendigo na calçada
E chorar entre soluços, convulsões.


Ah, mas que desejo mais soturno
De tombar ali, sem cor nem vida,
Ou de ao menos cantar melancolias,
De correr, sumir, morar no nada.


Ai, o bar é claro e iluminado
E é contudo sombrio e tão escuro.
Tanta gente, conversas pelas mesas
E um deserto e quietude sepulcral.


Toca um samba tão bonito, tão sonoro,
E o silêncio é de à alma torturar.
A alegria toma conta do ambiente,
Mas não toca jamais aquele homem,
Cuja alma se encontra tão distante,
Num lugar onde a vida não tem vez.


2022

A MEL E RAPOSA

 

 Que minhas mãos de afago puro
Sobre suas cabecinhas inocentes
Se façam a magia a guardá-las,
Protegê-las dos males do mundo.
Meu olhar de amor contenha o feitiço
De lhes dar todo, todo bem do universo.
Meu amor imenso seja o deus poderoso
A fazer que seus dias sejam sempre felizes,
Paraíso merecido por todo animal.


2022

VIVER POR VIVER

 

 Missão alguma senão aquelas que me dei
Por amor, por entrega e os princípios que nutro.
Nenhuma entidade me sussurra ou dá rumo.
 A solidão, grande, obesa, inflada, gigante,
Expande-se e ocupa cada palmo da casa.
Que solidão -- me pergunto e replico
--Se as cadelinhas dividem cada espaço comigo?
A solidão, me respondo, do espírito árido e boca trancada
A fazer-se masmorra, calabouço do verbo
Pejado dos ódios, de dor, desprezo e descrença.
Não busco n'alguma mulher uma cúmplice,
Se a alma incrédula não quer mais confiar.


Nenhuma missão além das cachorras.
Às vezes desejo deixar-me morrer,
Assim como eu fosse criatura de areia,
E o vento me viesse desfazer, diluir.
Deixar as cadelas a um herdeiro bondoso?
Por que morrer, entretanto?
Por fastio, desengano, por tédio?
Morrer ou varar noites brancas na esbórnia,
Velho etilista, tardio notívago,
Veterano boêmio entre mesas de bar?


Se  dúvidas chegam, não busco por norte:
Qual homem tem luz pra saber seu caminho?
Pois nós, vis humanos, jamais somos sábios,
Ou então não teríamos deploráveis deslizes.


Sem ser aclarado, vou pisando somente
Os chãos dos meus dias, vivendo os momentos,
Sem buscar pão da vida ou sentido qualquer
Pra vagar pelo mundo, existir tão somente.


2022

A ILHA

 

 Existe uma ilha no Atlântico,

Onde o mar verde arrebenta

E só se desnuda quem quer:

Ali o nudismo é careta.


Na ilha ninguém tem par --

Só se o amor bater forte.

A deusa que ali se louva

É a deusa libertinagem.


Pra saciar Madalena

É necessário uma fila.

Lista de amantes do Saulo

É da grossura da Bíblia.


Não é uma regra andar louco,

Só quem deseja que pira.

Não há sistema ou trabalho:

Lá só se vive de brisa.


Se vem chegando a tristeza,

A poesia afugenta.

Todos bem sabem que a lira

Não necessita ser triste.


Ilha de pura paixão,

Da juventude à velhice;

Jorge José ama seis,

Ana Maria ama vinte.


Ninguém concorre ou compete,

Todos se irmanam profundo.

O ódio por lá não existe,

Só puro amor é o que impera.


Lá não se mata nem caça,

Comendo-se aquilo que a terra

Dá, faz brotar e ser fruto:

Martírio é pecado mortal.


Ilha formada do nada,

Vinda de um sonho tão claro

De um poetinha sem regras,

Com alma tão libertária...


2022

O SAGRADO E O SATÂNICO

  

 Hipócrita é o ser humano,

Nocivo é o ser humano,

Pois sempre louvando o sagrado,

Mas sempre amando o satânico


Satânico é gerar a pobreza,

Satânico é encorpar a miséria,

Matar ou ferir a carne

Ou alma de seres viventes.


Que existe de mais sagrado

Que uma existência condigna?

Que existe de mais sagrado

Que o bem-viver dos teus filhos?


Que existe de mais sagrado

Do que o momento em que chegas

E que te aninhas no quarto,

Entregue de todo à paz?


Que existe de mais sagrado

Do que o momento em que paras

Pr'ouvir cantigas bonitas

E te emprenhar de emoções?


Que existe de mais sagrado

Que entrar na mulher tão querida,

Sentir vibrar o seu corpo

E um deleite descomunal?



Que existe de mais sagrado

Que o colo, a mãe e a criança,

Do que a ternura nos olhos,

Do que transbordar em paixão?


2022

Revisto e modificado em 11.02.2023


A MORTE DA POESIA IV

 

Não há não mais beleza matutina,

Não há não mais vontade de cantar,

Não há moça bonita debruçada na janela,

Não há não mais nostalgia nem saudade,

Não há passado porque o ontem nas memórias se apagou.


Não há  mais rosas nem jardins, nem jasmineiros,

Não há não mais lugar pra minha lira.

As maritacas viraram pássaros urbanos,

Os gaviões tiveram, então, destino igual,

E os micos hoje são caçados como ratos,

Sem "habitat" e sem abrigo ou belas matas.



Não há não mais o pio "agoureiro" da coruja

A inseminar na mente insana o que é funesto;

Nem há não mais ruas descalças de singela poesia;

Não há não mais lugar pra minha lira,

Se até em meu peito os anseios são de argila,

Se o mundo encheu-se de edifícios suntuosos

Pra cultivar poder, miséria e capital,

Se massacrar, sobreviver é que é o mister,

Se as emoções submergiram no asfalto tão brutal.


2022

Revisto e modificado em 11.02.2023


A MORTE DA POESIA III

 

 Não há mais dança de roda ou ciranda,

Não há mais bela moça a sonhar a varanda,

Nem mais há casais contando as estrelas,

Seresteiro nenhum cantando ao luar.



Não há mais poesia no mundo,

Não há mais poesia em meu mundo:

Meus anseios são todos de ferro,

Concreto, cascalho, pvc, pó de pedra.



O tempo foi duro, cimentou-me as quimeras,

Cobriu de azulejos meus campos de lira,

Tornou sons de draga as mais belas cantigas,

Secou a nascente da minha emoção.


2022

PRECE LÍRICA N° 2

 

 Bendita seja a noite fresca

Que é serena como um monge,

Que, qual mãe de amor extremo,

Nos aninha em sua paz.


Bendita seja a tarde alegre

Enfeitada de pessoas

Passeando, tão profusas,

Pelos parques da cidade.


Abençoa, Deus, as línguas

Sequiosas que se enroscam

E a doçura dos amantes

Na conjugação carnal.


Que bendito seja o olhar

Que se emprenha de ternura,

Se desnuda de maldades

E se faz angelical.


Que bendito seja o verbo

Do poeta enamorado,

Salpicando nas estrelas

Sentimentos e emoções.


2022

POEMA SEM VERBO


Não, meu poema não é mais canto nem verbo:

Apenas se esconde, silente, num beco escuro da noite fria

E se encolhe e assim permanece, quieto 

E pranteia de um modo abundante, incessante,

Mas sem o menor dos soluços, sem poder ser ouvido.

Chora escondido e volta os olhos ao céus sem estrelas,

E nada busca senão a escuridão mais soturna...

A escuridão mais calada,

Como se nada se visse,

Como se nada se ouvisse,

Como se fosse o nada.

Meu poema é estátua enegrecida no deserto e esquecido jardim.


2022

A REVOLUÇÃO DOS ARTISTAS

  Se não existe em definitivo a justiça dos homens Nem Deus no Universo a nos defender, resgatar, Pois que venham então de todos os lados Mu...